sexta-feira, 17 de julho de 2009

Hoje eu me denomino hoje. Bem diferente de ontem, sem esperar com tanta ânsia o amanhã. Vou em pequenos passos. Provavelmente bem menores que a maioria dos de 1985. Há dias em que aqui só se empurra com a barriga, outros de revolução intensa. Como disse há poucos, o hoje, hoje sabe de quase nada e menos ainda de si. Perdeu um pouco da fé aparentemente inabalável, não casou e fraquejou em alguns dos seus valores. Conservou certos hábitos começando por aqueles que se referem aos poucos amigos. O hoje já aceita a mortalidade. Sentiu friamente que não é um ser intocável. Ainda crê no corpo fechado, adoece pouco, mas a vida andou mostrando que a tal mola precisa periodicamente ser lubrificada. Catalisou alguns dos seus sentidos nesse meio tempo. Enxerga perfeitamente bem, enxerga fundo, enxerga o que nem sempre deseja, mas continua mais surdo que uma porta. É mais direto que antigamente, já não trabalha mais tanto com entrelinhas. Vive de uns 3 amores e os animais ainda estão no topo dos que mais sensibilizam. A estrada continua sendo a válvula de escape perfeita e a saudade o vilão mais famoso. Perde o sono, perde o juízo, perde a chance de ficar quieto. O hoje simplesmente irrita quando a força do hábito fala mais alto e ele resolve entrar em crise com o tempo. Não quer crescer, quer colo, quer voltar pro Pré da Tia Rose.O hoje é um incógnita previsível. Com sobra de falta de paciência e bunda grande. Que não sabe não ser tudo que é mesmo não sabendo exatamente o que seria. Com ele Deus fez tudo certo. Em especial quando resolveu jogá-lo aqui na versão mulher. Sabia que não daria certo em outro molde já que não tem saco nenhum. Está em constante e interminável processo de adaptação ao mundo. Sem muita ambição de sucesso quanto ao mesmo.
O hoje esses dias deu passos enormes em direção da normalidade. Daquilo que o mundo todo almeja. Um coração em paz, um trabalho que satisfaça e um bom lugar pra terminar um dia.
Como disse ele está bem diferente de ontem, o que pra esse caso vem a ser, muito melhor.

Fernanda Gava

domingo, 10 de maio de 2009

Às vezes me perguntam por que eu parei de escrever e nem eu mesma sei responder. Talvez eu saiba dizer a razão pela qual um dia eu tenha escrito.
Eu acredito que tudo foi fruto dessa nossa juventude, daquela prepotência sem intencionalidade de achar que se sabe de tudo. Que se é o mandante do mundo.
Eu realmente achava que era praticamente tudo uma questão de vontade. Que querer salvar o mundo e ser aquilo que se deseja era determinado por resistência. Eu duvidava que a vida fosse tão efêmera ou que certas coisas não fossem capazes de mudar. Eu não brincava quando citava a possibilidade de ser super herói, sobre ser um ser invencível.
Eu achei que o amor era somente uma questão de peito aberto e encontro. Falava dele com tanta simplicidade e conhecimento. Eu me fechava quanto ao fato das adversidades. Durante muito tempo eu fui crente até que dava de se viver dele. E diferente de tudo que hoje eu não sei, eu sei perfeitamente quando essa minha Síndrome de Afrodite foi para o espaço. Fragmentou-se, dissipou-se em questionamentos e receios que hoje podam cada frase direcionada a 3 pessoa.
Eu pensei com convicção que soubesse de tudo e ainda mais um pouquinho do restante. Eu nunca admiti a falta de fé, os incrédulos. Eu achava que éramos nós que estávamos no controle de tudo e só acreditava em destino quando esse pudesse ser favorável. Quando lá na frente ele nos colocasse potes de ouro, crianças fortes e coradas; curas de doenças e príncipes encantados.
Acreditava no tempo e na parceria que podíamos fazer com ele. Mas olha só o que hoje ele me traz, uma pele negativamente diferente e um mundo beirando ao caos. Trouxe consigo responsabilidades e a sua própria redução para que eu conseguisse resolvê-las. Eu bem disse que queria ser Peter Pan.
E quando eu também achei que entendia tudo sobre relacionamentos humanos e pessoas, as minhas vem, estragam tudo e então eu descubro que nem ao certo sei quem eu sou!
Então como se faz para escrever ou falar de algo que não se conhece? Que tem seus valores, princípios e costumes que não se enquadram com o que rodeia? Que até reluta cansada pra não perder a personalidade, mas que vem perdendo gradativamente as forças toda vez que a vida resolve sem aspectos de culpa lhe dizer não.
E o pior de toda a situação é presenciar esse ser estranho acostumando-se com a acomodação. É ver seu corpo encaixando-se ainda meio torto nesses novos moldes feitos de aceitação.
Ainda não dá para escrever sobre algo que não agrada. Enquanto isso eu vou vivendo até que passe. Volto, se encontrar minha identidade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Se não fossem verídicas não seriam frases feitas e sim piadas.
Ela estava mais uma vez certa quando berrou da cozinha que ninguém morre de amor, que não havia nada melhor que um dia após o outro, o acordar, que o tempo sempre foi o melhor remédio.
Em meio a pernas entrelaçadas o "próximo passo" foi dado. E com todo o sucesso duvidoso, vem transformando-se em corrida. Corrida às pressas visto que tanto tempo já foi perdido.
Pra quem era aquela que nos joguinhos de escola, registrado em últimas folhas, casaria-se com 21
anos... é hora mesmo de seguir em frente e voar.
Notifiquem o destino que eu voltei pro jogo. Eu não deixei de acreditar, como era previsto. Apesar do histórico, de realmente aparentar que a história aqui seria uma velhinha solteirona, complicada, de tatuagens desbotadas e pêlo de gato nas roupas, eu ainda me sinto merecedora da tal casa de sala
agradável. Merecedora do marido chegando as 19 horas e peças de Legos espalhadas pelo chão.
Eu já caí e levantei tantas vezes que agora eu começo a economizar com as crises, antes mesmo que elas me deem câimbras. É assim quando a vida faz de ti uma espécie "Made in Taiwan" de Fênix.
Nada simples, mas nunca impossível.
Estar com você é como ter tudo e não ter nada. Em você eu encontro aquilo que mais preciso numa luta injusta contra o relógio. Porque hoje somos só raros momentos. Envolvidos de magia e desespero.
Ah meu amor, porque quando você levanta e eu vejo suas costas, tudo que era doce torna-se amargo. E eu vejo claramente em seus olhos a falta de disposição para mudar a situação.
Você não cansou só de mim e do nosso relacionamento tortuoso. Você cansou do que via no espelho.
Cansou de ter alcançado a perfeição e de tê-la perdido com a mesma facilidade. Cansou de ter sonhos alcançáveis. Cansou de ser alguémk regrado e que sofre como tantos outros. Você cansou da normalidade.
E por fim quem te fez assim fui eu. Que usei moldes ideais para satisfazer e dar continuidade aos meus sonhos rosas de príncipes encantados.
Veja só que ironia... Agora aqui estou eu te desejando ainda mais no momento em que transforma-se em vilão. Que me usas, me dobra, amacia e joga fora. Quando viras minha alma ao avesso sem dó, nem piedade.
Mas está tudo bem. Eu te entendo. Aceitar todas as culpas e visíveis falhas nunca foi tão fácil. Eu já não me importo em ser bruxa, monstro, um ser abominável desde que seja o teu.
Eu deixo tu brincares comigo, destruindo todos os meus conceitos feministas, até que eu não tenha mais joelhos para implorar. Até que minha tolerância vá para o saco.
Meu bem, ainda há tempo! Aproveite-se de mim e da minha momentêna falta de amor próprio. Os teus beijos vazios estão me preenchendo. Eu ainda estou fingindo acreditar nas tuas desculpas em não me atender. As tuas lágrimas maquiadas ainda me comovem. Ainda resta espaço pra você e resquícios de fé por aqui. Ainda desejo intensamente você, que afinal sabe, quando quero algo vou até o final.
E desculpa descobrir o teu segredo, mas eu sei que você também sabe que para nós nunca existirá o final.
Ele está salvo comigo. Eu prometo.
Eu sinto saudade dos planos utópicos, de dar sem receber, de receber sem nem ao menos merecer.
Das cartas apaixonadas, recheados de exagero. Dos sonhos minimalistas, com casa de cerquinha branca. De se ter um referencial, de me apaixonar sem conseguir medir. Da convicção no amor.
Saudade de acreditar que em 2 pode-se mudar o mundo. De travesseiros molhados por insegurança e medos da perda. De ser aquela mulherzinha clássica, de me alimentar de alguém.
Saudade do fogo e dos ciúmes. Da auto suficiência que se existe quando se está apaixonado. Saudade de querer criar dialetos quando "eu te amo" torna-se pouco e comum demais. De questionar se o meu muito, não está sendo pouco. Da fé em algumas instituições.
De crer piamente que posso encarar guerras e forcas por alguém que não seja eu.
Saudade de desconhecer o fato de que realmente sei andar sozinha. De depositar todas as certezas e sentidos da vida em outro. De não pensar primeiramente em mim. Saudade de um dos lados que desapareceu.
Saudade de quando eu acreditava que tudo podia ser pra sempre.
Saudade de alcançar as estrelas...
Passou 1, 2, 3 ... e nada da minha ansiedade.
Dia 17 e eis que surge ela atrasada.

Ano passado, nas proximidades da data, nos arredores do dia 28, tudo era MUITO diferente do que é hoje. E talvez nem Deus previa as tantas mudanças que minha vida faria. Os milhares de dilemas e confusões nos quais me meteria. Os rompantes que eu teria.
E eu realmente ainda não sei o que é o certo ou errado. Ainda não sei se caibo nesse mundo. Eu ainda não sei se tudo que fiz valeu a pena. Mas alguma coisa mudou, afinal esse será o primeiro aniversário em que eu aceito o número correspondente ao das velhinhas. E digo mais, com um sorriso no rosto. E resquícios de rugas.

De alguém nascido em 1985, que dessa vez faz juz aos seus 23 anos.
Como é bom sentir os velhos sabores de novo. Antes eu não apreciava direito, com cuidado.
Simplesmente colocava na boca e engolia, sem pensar se voltaria um dia a sentir aquele gosto. Era assim com o abacate amassado com açúcar, onde as atenções estavam todas voltadas para o Muppets Baby na televisão. Ou com as jabuticabas da Tia Gema, “saboreadas” junto com a água geladinha vinda direto do poço. E eu coloco aspas na ação porque as pobrezinhas eram simplesmente jogadas para dentro do estômago. Como se fossem simples remédios para a gripe.
Naquele passado eu estava mais preocupada em me pendurar no galho mais alto antes dos meninos, do que sentir a doçura das bolinhas pretas gigantescas. Assim como a preocupação sempre foi maior com o que dizia a respeito em descobrir a cara da babá do Caco e da Pig; do que em ver se eu não estava comendo o caroço do abacate.
Enfim, a questão aqui não é a salada de frutas. Digo antes que alguém me ache louca e ainda venha me explicar que tudo isso eu posso encontrar no setor frutífero de algo que chamam de supermercado.
O que sinto, e sinto muito, é que de fato a gente se acostuma a não sentir mais os gostos. Troca o abacate por qualquer frutinha sem graça e com menos gordura vegetal. Evita jabuticaba para não ter prisão de ventre, no meio de outras milhares de negociações infelizes. E o que começa na cozinha vai então se alastrando feito vírus e então tu te acostumas a não mais dar boa noite para os pais antes de ir deitar. Acostumas-te a não ter mais paixão no teu casamento. A perder sem lutar. Acostumas com o fato de trabalhar feito escravo e ganhar um salário meia-boca. Adapta-se com o estilo de vida medíocre que leva mesmo sabendo que tem potencial para algo melhor. Tu te acostumas com os preconceitos e com as barbáries do mundo, sem mais questionar ou derramar lágrimas. Tu te acostumas com o trânsito infernal e a ver crianças nas ruas. Jurou quando jovem que não se moldaria, mas hoje tu já te acostumaste a votar no político menos corrupto. Tu te acostumaste com o gosto do refrigerante light. Com trocar o macarrão caseiro da tua vó por fast-food. Com usar salto alto só pra parecer mais elegante. Com dar e não receber. Tu te acostumas a ter sempre a iniciativa quando a real vontade é não precisar fazer nada. Acostumas a levar sempre a culpa pra evitar discussão. Acostumas a engolir choro porque já cresceu. E a gente se acostuma com os dias passando cada vez mais rápido e com a velhice chegando.
Então quando o fim da linha chega, tu te tocas que estava funcionando em modo automático esse tempo todo. Aceitando, naturalizando, engolindo caroços e mais caroços. Tapando o sol com peneira e muito sal de fruta.
E eu não precisei ir para a cama de um hospital ou ter dias contados para perceber isso. Até porque esse não é um caso particular. Eu vejo o mundo todo fazendo uma corrida às cegas. Prendendo-se a coisas e situações sem sentido por convenção e comodismo. Vendo a vida passar sem ao menos passar a mão na bunda dela. Sem aproveitar o que de fato devemos e dá prazer. Simplesmente consentindo.
Eu vejo pessoas condicionadas e de mãos presas por chicletes.
E pensar que esse quadro pode mudar não é nenhuma utopia. Eu por exemplo, estou resgatando os tais velhos sabores. Porque eu realmente havia esquecido como era ser a prioridade de alguém, de como era o abraço de pai.
E agora eu quero comprar uma piscina de plástico com desenhos azuis de ondinha e comer picolé de mini-saia. E vou mergulhar nela como se esse fosse meu último mergulho, como se a água do planeta estivesse pra acabar amanhã. Quero chupar esse sorvete até sentir o gosto da madeira do palito, como se aquele sabor fosse uma edição limitada.
E aí sim, quando eu chegar no dia do meu juízo eu vou mandar que me levem porque aqui eu já fiz tudo o que pude e não pude.
Eu vou viver o que ainda posso intensamente, provando tudo quanto é tipo de fruta. Eu só vou concordar com aquilo que me convém, e na atual conjuntura, já não concordo mais com o tempo perdido e lamentação.
Eu estou indo ali escrever a melhor história.